Construir no Brasil tem se tornado um desafio cada vez mais caro e complexo. Desde 2020, o custo do metro quadrado em obras residenciais aumentou cerca de 40%, segundo dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). A alta pressiona construtoras e consumidores, eleva o valor final dos imóveis e limita a capacidade produtiva do setor.
Diante desse cenário, eficiência operacional e inovação tecnológica têm se mostrado as principais saídas para controlar custos e manter a competitividade. A adoção de processos ágeis, inteligentes e integrados vem transformando a forma de construir e estimulando uma nova mentalidade nas empresas do ramo.
Um exemplo vem da Emccamp Residencial, construtora com quase 50 anos de atuação em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A empresa adotou o Lean Construction, metodologia de origem japonesa inspirada na indústria automobilística, que prioriza a eliminação de desperdícios e o foco no que realmente agrega valor ao cliente e ao negócio.
De acordo com Carlos Eduardo de Melo, gerente de Excelência Operacional da Emccamp, o método representou uma mudança profunda de mentalidade.
“Reduzir custos não é sinônimo de cortar qualidade. É repensar cada etapa do projeto para alcançar mais eficiência, menor prazo e custo equilibrado”, explica.
Na prática, o Lean reorganiza o canteiro de obras, otimiza o planejamento e define fluxos de trabalho mais precisos. A proposta é eliminar retrabalhos, reduzir estoques e garantir que cada profissional saiba exatamente o que fazer e quando fazer. Para Michele Cristini Soares Pires, gerente de Planejamento e Controle da construtora, os resultados são claros.
“Com o planejamento colaborativo, todos participam e compreendem o cronograma. Isso evita gargalos e garante que os recursos estejam disponíveis no momento certo, reduzindo custos e prazos”, destaca.
Além da eficiência operacional, a integração entre tecnologia e gestão de pessoas tem sido essencial. Ferramentas como o BIM (Building Information Modeling), sistemas digitais de controle de estoque e monitoramento em tempo real conectam todas as etapas da obra — do projeto à entrega final.
A capacitação das equipes também se tornou prioridade.
“As pessoas são o motor da mudança. Investir em treinamento é fundamental para consolidar a cultura Lean e alcançar resultados sustentáveis”, reforça Michele.
Os ganhos são tangíveis. Segundo Carlos Eduardo, a adoção da metodologia já permitiu reduzir em até 20% o tempo de execução e diminuir em 10% o custo final dos empreendimentos, sem comprometer a qualidade.
“O segredo é fazer mais com menos — menos tempo, menos material e menos retrabalho, com mais valor para o cliente”, completa.
Para Roberto Matozinhos, assessor técnico do Sinduscon-MG, essa transformação vem se espalhando por todo o setor.
“O construtor não controla o preço dos insumos, mas domina seus processos. Boa gestão é o ponto de equilíbrio que garante negócios sustentáveis e moradias acessíveis”, analisa.
A tendência, segundo ele, é que a filosofia Lean caminhe junto à industrialização da construção, com o uso crescente de sistemas pré-moldados, kits hidráulicos e elétricos montados fora do canteiro e maior digitalização das obras.
“A construção ainda é artesanal, mas já vivemos uma aceleração rumo à automação e à produtividade. É um caminho sem volta”, afirma.
Com metodologias ágeis, tecnologia integrada e profissionais capacitados, o setor começa a desenhar uma nova era: obras mais eficientes, sustentáveis e acessíveis, que equilibram custos, qualidade e velocidade de entrega.