Construção civil desacelera, mas projeta retomada mais forte no próximo ano

O Produto Interno Bruto (PIB) da construção civil deve encerrar 2025 com crescimento de 1,8%, abaixo da estimativa inicial de 2,2%, segundo balanço divulgado pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP). Para 2026, a entidade projeta um cenário mais favorável, com expansão estimada em 2,7%, sustentada principalmente por investimentos e programas habitacionais.

Apesar da revisão para baixo no acumulado do ano, o desempenho recente do setor mostra sinais de recuperação. No terceiro trimestre de 2025, a construção registrou alta de 1,3%, revertendo as quedas observadas nos dois trimestres anteriores — retração de 0,7% no primeiro e de 0,3% no segundo. Até setembro, o crescimento acumulado alcançava 1,7%.

Segundo a coordenadora de Projetos da Construção do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), Ana Maria Castelo, o setor opera atualmente em um patamar elevado. “Mesmo com a desaceleração ao longo do ano, o nível de atividade da construção permanece bem acima do observado no período pré-pandemia”, avalia.

O levantamento do Sinduscon-SP também aponta perda de fôlego no mercado de trabalho formal da construção. Nos últimos 12 meses, o estoque de mão de obra cresceu 4,1%, ritmo inferior ao observado em anos anteriores. A dificuldade para contratar profissionais qualificados segue como o principal entrave das empresas, com expectativa de aumento de 10% nos custos de contratação ao longo do ano.

Ana Maria Castelo destaca o papel do programa Minha Casa, Minha Vida como um dos principais motores do setor em 2025. Apenas neste ano, o programa respondeu por quase 400 mil contratações. “Diante das restrições de crédito para média e alta renda, o programa segue sendo um importante impulsionador da atividade”, afirma.

Crédito mais caro pressiona empresas
A coordenadora do FGV/Ibre chama atenção para a redução no financiamento às construtoras, especialmente no crédito direcionado às empresas. Parte desses recursos passou a ser captada no mercado financeiro, com custos mais elevados. “Isso representou uma dificuldade adicional enfrentada pelas empresas ao longo de 2025”, explica.

Consumo de cimento indica atividade aquecida

Um dos indicadores mais relevantes do setor, o consumo de cimento, apresentou crescimento de 3,6% no acumulado do ano até outubro, conforme dados do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (Sinc). Em contrapartida, a indústria e o comércio de materiais de construção registraram quedas de 0,7% e 0,1%, respectivamente, refletindo a desaceleração do consumo das famílias, responsáveis por 47% da demanda por esses produtos.

“A mudança é clara. Em 2024, a construção cresceu 4,4%. Em 2025, observamos indústria e comércio praticamente estáveis, com viés de queda, evidenciando a forte desaceleração do consumo das famílias”, analisa Ana Castelo. Ela ressalta que o cimento é um termômetro essencial da atividade, especialmente em obras de infraestrutura, que demandam grandes volumes do insumo.

Infraestrutura sustenta investimentos
De acordo com o Sinduscon-SP, os investimentos em construção devem somar R$ 280 bilhões em 2025, alta de 3,9%, com maior protagonismo do capital privado. O resultado reflete, em grande parte, os leilões de concessões realizados nos últimos anos, incluindo 2025.

Perspectivas para 2026

Para 2026, o desempenho do setor dependerá de fatores como o cenário geopolítico, a situação fiscal e a manutenção da taxa básica de juros em patamar elevado, atualmente em 15% ao ano. Em contrapartida, medidas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para rendas de até R$ 5 mil e novas linhas de crédito são vistas de forma positiva.

“O programa Reforma Casa Brasil, com R$ 40 bilhões, tem potencial significativo para geração de emprego e renda”, destaca Ana Maria Castelo. Já o presidente do Sinduscon-SP, Yorki Estefan, aposta na ampliação da Faixa 4 do Minha Casa, Minha Vida, voltada à classe média. “As empresas já prepararam produtos para se enquadrar nessa faixa e iniciar novos lançamentos”, afirma.

Com esse conjunto de fatores, o FGV/Ibre projeta para 2026 um crescimento de 2,7% no setor da construção civil, impulsionado tanto pelas empresas (2,8%) quanto pelo consumo das famílias (2,6%).

Fonte: Construa Negócios