A construção civil deve atravessar um período de forte aquecimento no próximo ano, impulsionada pela ampliação do crédito habitacional, pela expectativa de queda da taxa básica de juros e por novos programas de estímulo à moradia. A avaliação é do presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), Renato Correia, que projeta um cenário favorável para investimentos, lançamentos e geração de empregos no setor.
Entre os principais vetores desse crescimento está o orçamento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), que contará com R$ 144,5 bilhões destinados à habitação. Soma-se a isso a modernização do modelo de captação de recursos pelos bancos para financiamentos imobiliários, que deve adicionar entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões ao mercado de crédito.
Outro fator determinante é a perspectiva de redução da taxa Selic, atualmente em 15% ao ano. Para Correia, a queda dos juros é essencial para destravar investimentos e ampliar o acesso das famílias ao crédito imobiliário. A expectativa do mercado é que o ciclo de cortes comece em março, com a Selic podendo atingir cerca de 12% ao final do próximo ano.
Programas habitacionais ampliam o fôlego do setor
A implementação do programa Reforma Casa Brasil é vista como mais um impulso relevante. A iniciativa deve disponibilizar R$ 40 bilhões em crédito para reformas habitacionais, com juros a partir de 1,17% ao mês e condições adaptadas às diferentes faixas de renda familiar.
“O setor da construção civil é intensivo em capital e exige investimentos por longos períodos. Ainda assim, nossa expectativa é de um mercado forte, aquecido e com grande capacidade de geração de empregos”, afirma o presidente da Cbic.
O programa Minha Casa, Minha Vida também segue como pilar central da política habitacional. Em 2025, o programa ganhou a Faixa 4, voltada às famílias com renda de até R$ 12 mil, e apresentou desempenho expressivo, com cerca de R$ 127 bilhões aplicados. Já a Faixa 1, destinada às famílias de menor renda e fortemente subsidiada pelo governo federal, voltou a ganhar tração ao longo do ano.
Juros e ambiente financeiro
Correia reforça que o nível elevado da Selic ainda impõe desafios. Segundo ele, juros altos desestimulam lançamentos, adiam investimentos e dificultam o acesso das famílias ao financiamento imobiliário. Além disso, governos enfrentam maiores obstáculos para viabilizar projetos estruturantes, enquanto empresas assumem riscos mais elevados ao planejar expansões ou modernizações.
“O setor está preparado para avançar, mas precisa de um ambiente financeiro mais favorável para sustentar esse crescimento”, destaca.
Burocracia ainda é gargalo
Apesar do otimismo, a burocracia segue como um dos principais entraves à expansão do setor. De acordo com Correia, processos de licenciamento e aprovação de empreendimentos podem consumir até 18 meses antes do início efetivo das obras.
Para ele, a digitalização dos governos — em níveis federal, estadual e municipal — é fundamental para acelerar aprovações e reduzir custos. “Quanto mais rápidos forem os processos, mais cedo conseguimos entregar imóveis e infraestrutura de qualidade para a sociedade”, afirma.
Eleições não devem afetar o setor
Mesmo com a proximidade das eleições de 2026, o presidente da Cbic avalia que a construção civil deve manter estabilidade. Segundo ele, o setor opera com contratos de longo prazo e programas estruturantes, como o Minha Casa, Minha Vida, que se consolidaram como políticas de Estado, independentemente de governos.
“O déficit habitacional ainda gira em torno de 6 milhões de moradias. Não há como o País deixar de investir em habitação e infraestrutura”, afirma.
Mercado regional segue estável
No cenário regional, a expectativa é de continuidade em ritmo estável. Para Carlos Meschini, diretor do Secovi-SP, o mercado deve operar em “velocidade de cruzeiro” ao longo de 2026, com preços relativamente estáveis, ao menos no início do ano.
A perspectiva é que uma eventual queda mais consistente dos juros, a partir do segundo semestre, traga um estímulo adicional às vendas. “Não esperamos grandes oscilações de preço, mas sim estabilidade, sem movimentos bruscos”, avalia.
Perfil dos imóveis e novas áreas de investimento
O diretor da construtora Engeplus, Roberto Barroso Filho, também projeta um cenário positivo, especialmente para imóveis com valores entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, localizados em zonas intermediárias de Santos. A procura deve se concentrar em unidades de um a três dormitórios, com metragens mais compactas e maior apelo de acessibilidade.
Entre os bairros com maior concentração de novos empreendimentos estão Ponta da Praia, Aparecida, Embaré e Boqueirão, que devem responder por cerca de 90% das construções em andamento.
Barroso destaca ainda o potencial do Centro de Santos, onde novos projetos começam a surgir. Após o lançamento de um empreendimento no Valongo, outras construtoras já sinalizam investimentos na região, indicando uma retomada gradual, ainda tímida, mas com perspectivas de crescimento nos próximos anos.