O início de 2026 é marcado por uma desaceleração gradual da economia brasileira, com crescimento moderado, juros ainda elevados e atividade industrial perdendo fôlego. Nesse contexto, as indústrias processadoras de aço, representadas pela Abimetal-Sicetel (Associação Brasileira da Indústria Processadora de Aço e Sindicato Nacional da Indústria Processadora de Aço), operam sob pressão crescente, combinando demanda enfraquecida com aumento da concorrência externa.
Desempenho do 1º trimestre fica abaixo do verificado no mesmo período de 2025
O desempenho do primeiro trimestre de 2026 permanece abaixo do observado no mesmo período do ano anterior, indicando que a recuperação ainda não se consolidou. Dados do IBGE apontam queda de 8% na produção industrial de fevereiro de 2026 em comparação ao mesmo mês de 2025. “O resultado reflete um ambiente de demanda fragilizada, ao mesmo tempo em que se intensificam fatores externos que impactam a competitividade da indústria nacional”, explica Ricardo Martins, presidente da Abimetal-Sicetel.
Volume importado cresceu 95% entre 2019 e 2025, com China concentrando 58,9% das compras
As importações de produtos processados de aço seguem como ponto central de preocupação. Embora o primeiro bimestre de 2026 tenha registrado queda de 10,8% em volume e 13,8% em valor frente ao mesmo período de 2025, o movimento ocorre após um ciclo prolongado de crescimento. Entre 2019 e 2025, o volume importado cresceu cerca de 95%, ultrapassando 821 mil toneladas — consolidando uma mudança estrutural no padrão de abastecimento do mercado brasileiro.
A China permanece como principal origem, concentrando 58,9% do volume importado, com preços em alguns casos até 40% inferiores aos praticados no mercado interno, ampliando o deslocamento da produção nacional em diversos segmentos. A análise desagregada das importações mostra que a desaceleração recente não é uniforme: de 96 produtos avaliados, 49 registraram aumento no início de 2026, sendo 36 com crescimento superior a 10%.
“Os dados mostram um avanço consistente em segmentos estratégicos. Esse movimento, associado a diferenças relevantes de preços, cria distorções competitivas importantes e amplia o deslocamento da produção nacional. É um processo que merece maior atenção do governo federal, pois impacta diretamente a sustentabilidade da indústria brasileira ao longo da cadeia”, afirma Martins.
Alta de insumos e custos logísticos comprimem margens da indústria nacional
O ambiente internacional também apresenta inflexão na trajetória de preços. O minério de ferro acumula alta de 2,8% no início de 2026, enquanto a bobina a frio de aço inoxidável registra elevação superior a 8%. Esse movimento, somado à expectativa de restrições de oferta no mercado asiático e à elevação dos custos logísticos, pressiona a estrutura de custos da indústria processadora brasileira, reduzindo margens em meio à forte concorrência com produtos importados.
“O setor enfrenta um desequilíbrio relevante entre custos e preços. A permanência de importações em níveis elevados, associada à elevação dos custos de insumos, compromete a competitividade da indústria nacional e reforça a necessidade de medidas que promovam condições mais equilibradas de concorrência”, defende o presidente da Abimetal-Sicetel.
Entidade pede combate a importações subfaturadas e mais fiscalização governamental
Diante do panorama, a expectativa é que o segundo trimestre siga desafiador para o processamento do aço. A Abimetal-Sicetel cobrou medidas concretas do governo federal para proteger a indústria nacional. “A indústria brasileira está no limite de sua capacidade de adaptação. O momento requer políticas públicas de defesa da indústria. Cabe ao governo intensificar o combate às importações subfaturadas, que afetam diretamente a competitividade e deixam de recolher tributos”, pontuou Martins.