Com um investimento histórico anunciado, a ByteDance, empresa controladora do TikTok, prepara-se para instalar o seu maior data center fora da China. O complexo portuário do Pecém, localizado no estado do Ceará, foi o local escolhido para abrigar a megainfraestrutura, orçada em R$ 200 bilhões. Com previsão de início das operações para 2027 e com a possibilidade de instalação de até cinco unidades idênticas no mesmo complexo, o projeto sinaliza uma transformação profunda no setor tecnológico nacional e altera significativamente a lógica do mercado imobiliário.
O Brasil como polo tecnológico na América Latina
A movimentação da gigante chinesa ocorre em um cenário de forte expansão tecnológica. Apenas nos últimos dois anos, o Brasil registrou mais de R$ 150 bilhões em aportes anunciados voltados para a construção de data centers, consolidando-se como líder absoluto na região. Atualmente, o país já responde por cerca de 48% de toda a capacidade instalada desse tipo de infraestrutura na América Latina.
A escolha do complexo do Pecém, preterindo capitais e grandes centros urbanos tradicionais, obedece a novos e rigorosos critérios do setor de tecnologia. Para abrigar operações massivas de processamento de dados, três fatores tornaram-se indispensáveis: acesso abundante à energia limpa, conexão robusta de rede e terrenos com atributos muito específicos.
O projeto da ByteDance será alimentado integralmente por energia eólica, aproveitando parceiros de geração renovável já instalados na região. Além disso, o Pecém beneficia-se de uma localização geográfica altamente estratégica, próxima aos principais pontos de chegada de cabos submarinos de fibra óptica que conectam diretamente o Brasil aos continentes europeu e africano.
A nova dinâmica de valorização de terras
A chegada desse megaprojeto evidencia uma mudança no paradigma de valorização imobiliária. Enquanto o comércio tradicional busca essencialmente áreas com grande densidade e circulação populacional, o mercado de data centers exige propriedades que ofereçam, simultaneamente, energia renovável com custo competitivo, rede elétrica de altíssima capacidade, disponibilidade de água para modernos sistemas de resfriamento e infraestrutura de fibra óptica nas imediações.
Como resultado, regiões que historicamente passavam despercebidas pelo mercado imobiliário comercial começam a ser rapidamente reprecificadas. Segundo dados da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), o setor de data centers no país — que já conta com a atuação de gigantes como Ascenty, Equinix, Scala e ODATA — deve receber cerca de US$ 11,4 bilhões em aportes até 2026. A busca por terrenos que possuam esse conjunto específico de características tem gerado uma intensa disputa no setor.
Especialistas do mercado imobiliário alertam, no entanto, que a simples disponibilidade de grandes espaços físicos não garante atratividade aos investidores. Sem outorga de água para refrigeração e infraestrutura de rede pré-existente e confiável, as extensões de terra continuam sem serventia para essas empresas, o que torna as áreas efetivamente aptas cada vez mais raras e disputadas na nova economia digital.