O crescimento das franquias de materiais de construção no Brasil segue na contramão do movimento observado nos Estados Unidos, onde o varejo físico enfrenta um dos períodos mais intensos de retração das últimas décadas. Enquanto o mercado norte-americano acelera o fechamento de lojas, redes brasileiras ampliam presença regional, investem em showrooms e apostam na padronização de processos para atender um consumidor ainda fortemente conectado à experiência presencial.
De acordo com um estudo do banco UBS, divulgado por publicações como Business Insider e Forbes, mais de 50 mil lojas físicas devem encerrar as atividades nos Estados Unidos até 2027. O movimento é atribuído à consolidação do e-commerce, à centralização logística dos estoques e à redução da relevância das lojas independentes em um modelo cada vez mais digitalizado.
No Brasil, o cenário é distinto. Levantamentos recentes indicam que entre 31% e 33% dos brasileiros planejam ou já estão realizando reformas residenciais nos próximos meses, o que mantém aquecida a demanda por materiais de construção e impulsiona a expansão das redes varejistas, especialmente no modelo de franquias.
Indústria e varejo mostram retomada
A recuperação do setor também se reflete nos indicadores industriais. Após registrar queda de 2% em 2023, o faturamento da indústria de materiais de construção cresceu 5,8% em 2024, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat). O principal destaque foram os materiais de acabamento, que avançaram 8,6% no período.
No varejo, o franchising de casa e construção apresentou crescimento de 10,5% no faturamento no quarto trimestre de 2023, enquanto o número de operações aumentou 3,9%, conforme dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF). Esse desempenho é sustentado principalmente por pequenas e médias lojas, que representam a maior parte das cerca de 153 mil unidades do setor no país, de acordo com levantamento da Anamaco.
Experiência física segue decisiva no Brasil
Para o empresário e especialista em exposição de produtos de acabamento Jucemar Silva, que atua há mais de 30 anos no desenvolvimento de projetos e montagem de showrooms para lojas de materiais de construção, a diferença entre os dois mercados está diretamente relacionada ao comportamento do consumidor e ao papel do ponto de venda no processo de decisão.
“O consumidor brasileiro quer ver, tocar e comparar antes de comprar. A loja física continua sendo determinante, especialmente para produtos de maior valor agregado e com grande variação de textura, formato e acabamento”, explica Silva. Segundo ele, nos Estados Unidos o foco está cada vez mais na logística centralizada, o que reduz a importância das lojas menores e acelera o fechamento de unidades físicas.
Além do perfil do consumidor, fatores estruturais ajudam a explicar a expansão no Brasil. A interiorização do consumo favorece o crescimento de redes regionais, enquanto o modelo de franquias ganha força ao padronizar estoques, layout de exposição e atendimento técnico.
Padronização impulsiona eficiência e conversão
A profissionalização do varejo tem sido um diferencial competitivo. A adoção de expositores adequados para grandes formatos, aliada ao treinamento das equipes, melhora a taxa de conversão e reduz perdas operacionais. “Essa organização influencia diretamente o desempenho das lojas em um mercado cada vez mais exigente”, afirma Silva.
Outro ponto relevante é que a padronização permite que franqueados localizados em cidades menores repliquem modelos de gestão, layout e exposição antes restritos aos grandes centros urbanos, ampliando a capilaridade das redes.
Modelo híbrido deve se consolidar
A tendência para os próximos anos aponta para um modelo híbrido no varejo brasileiro de materiais de construção. A loja física permanece como peça central da jornada de compra, mas exige atualização constante dos showrooms, maior integração com arquitetos e designers, além de processos logísticos mais eficientes.
Entre as práticas já consolidadas estão a capacitação técnica das equipes para o manuseio de grandes formatos, a padronização de estoques, a realização de eventos com profissionais do setor e o cuidado estratégico com a exposição dos produtos.
Enquanto o varejo norte-americano reduz pontos de venda e concentra operações em grandes centros logísticos, o mercado brasileiro segue ampliando sua presença física. A expansão das franquias de materiais de construção reflete fatores culturais, operacionais e logísticos que mantêm a loja física no centro da decisão de compra — um elemento que tende a continuar determinante para a sustentabilidade e o crescimento do setor nos próximos anos.