Tarifa dos EUA ameaça vendas de caminhões e máquinas

A recente decisão de Donald Trump de aplicar uma sobretaxa de 50% sobre todos os produtos brasileiros vendidos aos Estados Unidos gerou um alerta no setor automotivo do Brasil. Apesar de o país exportar poucos veículos diretamente ao mercado norte-americano, a medida deve provocar impactos indiretos significativos, principalmente nas vendas de caminhões e máquinas agrícolas.

O aumento tarifário incide diretamente sobre commodities brasileiras, como soja e milho, o que preocupa o agronegócio – um dos principais clientes da indústria de veículos pesados. Com a pressão sobre os custos e a redução nas margens do setor rural, a tendência é de redução de investimentos em frotas e equipamentos.

De acordo com Fernando Trujillo, consultor da S&P Global, o impacto não virá das exportações diretas de automóveis, mas sim das consequências no mercado interno:

“Não exportamos quase nada aos Estados Unidos, mas haverá impactos secundários importantes se essa medida persistir, sobretudo sobre as vendas e a produção de caminhões e máquinas agrícolas”, destacou.

Queda nas vendas de caminhões preocupa montadoras

Mesmo antes do anúncio da nova tarifa, o mercado de caminhões no Brasil já dava sinais de desaceleração. No primeiro semestre de 2025, as vendas do segmento registraram uma queda de 3,5% em relação ao mesmo período do ano anterior.

A produção geral de veículos comerciais ainda conseguiu crescer 3%, puxada principalmente pelos modelos leves, enquanto os pesados, voltados ao transporte de grãos e outras matérias-primas agrícolas, apresentaram queda na fabricação.

Veículos leves também serão afetados

Embora o impacto seja mais direto sobre os pesados, o mercado de automóveis leves também poderá sentir os efeitos da medida norte-americana, sobretudo com a valorização do dólar. É o que explica Ciro Possobom, CEO da Volkswagen no Brasil:

“O dólar vai subir e isso sempre é algo desafiador para nós. Vai mexer no preço dos componentes importados, como eletrônicos e telas”, afirmou.

Setor automotivo entre juros altos e câmbio instável

Além da tensão gerada pela nova política tarifária dos EUA, a indústria automotiva nacional já vinha enfrentando entraves domésticos, como juros elevados, crédito restrito e demanda instável. A expectativa é de que esses desafios se intensifiquem, especialmente no segundo semestre.

Com o dólar em alta e a instabilidade no comércio exterior, as montadoras deverão buscar alternativas internas, como renegociação com fornecedores e estratégias de produção mais eficientes, para contornar o cenário desfavorável.

A depender da duração da medida americana, os efeitos em cadeia poderão atingir diversas pontas da economia brasileira, reforçando a necessidade de articulação entre governo e indústria para minimizar os danos.

Fonte: Construa Negócios