Pós-obra vira custo estratégico para construtoras

A entrega das chaves não encerra o ciclo econômico de um empreendimento. Para muitas construtoras, é justamente depois da obra que surgem custos silenciosos com chamados, garantias, manutenções, retrabalho e falhas que poderiam ter sido previstas.

Dados citados pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) apontam que o pós-obra pode consumir até 5% do Valor Geral de Vendas (VGV) de um projeto. Em um empreendimento de R$ 50 milhões, a conta pode chegar a R$ 2,5 milhões.

O problema está no ciclo que não aprende

Para Jean Sacenti, engenheiro civil e CEO da Predialize, a construção avançou em planejamento e execução, mas ainda trata o pós-obra como consequência administrativa, não como fonte de inteligência técnica.

Na leitura do executivo, muitas empresas deixam de cumprir a etapa de verificação prevista no ciclo PDCA, metodologia que organiza melhoria contínua em planejar, executar, checar e agir. Sem essa análise, o aprendizado de um empreendimento não alimenta o projeto seguinte.

BIM e inteligência artificial entram no pós-obra

A integração entre BIM e inteligência artificial surge como caminho para transformar reclamações, garantias e dados de operação em informação útil. O BIM registra o que foi especificado, quais sistemas construtivos foram adotados e quais prazos de garantia se aplicam a cada componente.

O pós-obra, por sua vez, mostra o comportamento real do empreendimento depois da entrega. Ao cruzar essas bases, a inteligência artificial pode identificar padrões de falha que se repetem em obras, regiões, fornecedores ou soluções técnicas.

Se determinado sistema apresenta desempenho ruim em clima tropical, por exemplo, a especificação seguinte pode nascer corrigida. A lógica é usar dados para impedir que o mesmo erro se repita em diferentes projetos.

Regulação aumenta pressão por digitalização

O ambiente regulatório também empurra o mercado para uma gestão mais estruturada. O Decreto 11.888/2024 estabeleceu a Estratégia Nacional de Disseminação do BIM, e a nova lei de licitações tornou a adoção da metodologia preferencial em obras públicas de engenharia.

Esse movimento tende a pressionar também o setor privado, especialmente empresas que atuam em contratos complexos ou que desejam reduzir passivos jurídicos ligados a falhas, prazos de garantia e atendimento ao cliente.

Menos passivo e mais decisão técnica

A inteligência artificial não substitui engenheiros, mas pode reduzir o tempo gasto em análises repetitivas e ajudar equipes a priorizar problemas relevantes. O ganho está em transformar dados dispersos em diagnóstico de recorrência, causa e impacto financeiro.

Para construtoras, isso significa tratar o pós-obra como parte da engenharia do negócio. O que antes aparecia apenas como custo depois da entrega pode virar insumo para especificações melhores, menor retrabalho e margens mais protegidas.

Fonte: Construa Negócios