Inflação estoura teto da meta pela 1ª vez sob novo regime de apuração contínua

Pela primeira vez desde a adoção do regime de metas contínuas de inflação, o Brasil ultrapassou oficialmente o teto da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). De acordo com dados divulgados nesta quinta-feira (10) pelo IBGE, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado em 12 meses atingiu 5,35% em junho, ultrapassando pela sexta vez consecutiva o limite superior da meta, fixado em 4,5%.

O resultado confirma o descumprimento da meta de inflação sob a nova metodologia, válida desde 2025, e exige que o Banco Central (BC) envie uma carta explicativa ao Ministério da Fazenda, conforme previsto pelo sistema de metas.


Alimentos pressionam inflação e consolidam rompimento da meta

No acumulado de 12 meses até junho, o grupo de alimentos e bebidas foi o principal responsável pela alta, com avanço de 6,66%, puxado por aumentos nos preços de itens essenciais.

Veja os valores do IPCA acumulado em 12 meses:

  • Janeiro: 4,56%

  • Fevereiro: 5,06%

  • Março: 5,48%

  • Abril: 5,53%

  • Maio: 5,32%

  • Junho: 5,35%

Com o índice acima do teto da meta pelo sexto mês consecutivo, a nova regra do regime de metas de inflação considera que a meta foi descumprida oficialmente.

Novo modelo traz mais rigor e acompanha padrões internacionais

A alteração no regime de metas foi aprovada em 2023 e começou a valer em janeiro de 2025. O modelo contínuo substituiu o formato anterior, no qual a inflação era considerada dentro da meta apenas se estivesse no intervalo ao final do ano (dezembro). Agora, a avaliação é feita com base no resultado acumulado a cada mês, em uma janela de 12 meses, de forma contínua.

A mudança tem como objetivo trazer mais previsibilidade e alinhamento com padrões internacionais, segundo o BC. O novo formato também busca evitar distorções causadas por choques temporários de preços, como commodities ou variações cambiais.

E agora? BC deve explicar, mas mantém atuação olhando para 2026

Com o descumprimento confirmado, o presidente do Banco Central deverá enviar uma carta pública ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, explicando os motivos que levaram à inflação acima da meta, bem como as medidas adotadas para reconduzi-la ao centro do intervalo.

Apesar da alta atual, o BC tem como foco a inflação projetada para meados de 2026, já que os efeitos da política monetária (como os juros) demoram até 18 meses para surtir efeito completo. A Selic permanece em 15% ao ano, e o Banco Central tem evitado sinalizar cortes enquanto as pressões inflacionárias persistem.

O que significa para o consumidor?

Inflação elevada reduz o poder de compra da população, especialmente dos mais pobres, já que preços sobem mais rapidamente do que os salários. Com os alimentos liderando as altas, o impacto é ainda mais sentido nas despesas básicas do dia a dia.

O cenário também torna o crédito mais caro, desestimula o consumo e pode frear a atividade econômica, num ciclo que tende a desacelerar o crescimento. O descumprimento da meta reforça a cautela do BC com a política de juros e indica um segundo semestre de 2025 ainda desafiador para a economia brasileira.

Fonte: Construa Negócios