Servitização industrial avança no Brasil, mas maioria das empresas ainda não cobra pelos serviços ofertados

Quando um fabricante de máquinas oferece manutenção preventiva junto com o equipamento vendido, ou quando uma indústria química disponibiliza consultoria técnica para seus clientes, está praticando o que economistas chamam de servitização — a integração de serviços ao produto industrial como estratégia de diferenciação e fidelização.

Retrato da servitização na indústria brasileira

A Sondagem Especial nº 100, elaborada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e divulgada nesta quinta-feira (21), revela um cenário de oportunidade ainda pouco aproveitada. De acordo com o levantamento, que ouviu 1.851 empresas entre novembro de 2024, quatro em cada dez indústrias de transformação já disponibilizam algum tipo de serviço complementar ao seu portfólio. Entretanto, apenas 16% delas monetizam essa oferta — a grande maioria entrega os serviços sem cobrança adicional.

Outros 41% das companhias consultadas sequer incluem serviços em sua proposta comercial, o que indica margem significativa para crescimento, na avaliação de especialistas do setor.

Onde o dinheiro é gasto: custo operacional supera inovação

O estudo detalha que, para cada R$ 100 faturados, a indústria destina R$ 19 à contratação de serviços terceirizados, com um quarto desse valor direcionado a serviços industriais especializados. O ranking das demandas mais frequentes evidencia que a prioridade ainda recai sobre eficiência operacional:

  • Manutenção e reparo de máquinas lideram com 58% de adesão
  • Transporte, logística e logística reversa aparecem em segundo lugar (57%)
  • Consultoria administrativa, contábil e jurídica vem na sequência (52%)
  • Serviços de software, IA e computação em nuvem ocupam a quarta posição (48%)

Quando se analisa separadamente os serviços de alta qualificação — aqueles que efetivamente agregam valor ao produto final —, a adoção cai para 58%, contra 72% nos serviços voltados à redução de custos.

Exportadores são os que mais investem em serviços qualificados

A presença no mercado internacional impulsiona a demanda por serviços especializados. Entre as indústrias exportadoras, 63% contratam serviços de agregação de valor, percentual que recua para 49% nas empresas restritas ao mercado interno. A diferença se reflete também nos gastos: exportadores destinam 29% de seus recursos a serviços especializados, contra 23% das não exportadoras.

Setores como vestuário, celulose e papel, higiene pessoal, farmacêutico, equipamentos de informática, máquinas industriais e mobiliário se destacam por contratar serviços de custo e de valor acima da média nacional.

Barreiras que impedem o avanço

Apesar do potencial, sete em cada dez empresas relataram dificuldades ao buscar serviços especializados. Os principais obstáculos citados foram o preço elevado (40%), a escassez de fornecedores adequados (26%) e a qualidade insatisfatória das entregas (11%).

Para Rafael Sales Rios, especialista em Políticas e Indústria da CNI, a evolução depende de políticas multissetoriais capazes de fortalecer simultaneamente a indústria e o segmento de serviços de alta qualificação, gerando um ciclo virtuoso de emprego e renda.

Fonte: Construa Negócios